quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Cenas que não aconteceram ou Drosóphila ou O tempo num grão de arroz com seu nome escrito

Você realmente pensou, de verdade, realmente sentiu que a gente era pra sempre?
Não sei te responder.
Responde o que você pensava.
Eu sou só uma personagem, eu penso o que você pensa que eu penso. Não é de mim que você quer essa resposta.
Eu também sou um personagem. E nunca achei que era pra sempre. Eu não sou pra sempre, eu morro. Todo dia.

Cenas que não aconteceram

Eu realmente te amei, aliás, te amo.
Por que você está dizendo isso agora?
Porque você é intolerável.
Você também não é fácil.
Eu sei, e é por isso que eu sempre soube que você me amava.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Uma música...

Não me poupe - Ludov
Até onde eu me lembro
você mandava cartas
me contando como é que havia sido seu dia
Até onde eu me lembro
eu sempre lhe respondia
Até onde eu me lembro
você veio sem grana
pra morar de favor na casa de um amigo
Até onde eu me lembro
você vivia comigo
O que aconteceu?
eu preciso descobrir
Então não me poupe
Tudo que eu disser
você pode usar contra mim
Até onde eu me lembro
você achava graça
na bagunça da casa
na desordem da pia
Até onde eu me lembro
a gente se divertia
Até onde eu me lembro
você nunca falava
dos seus planos futuros
dos problemas da vida
Até onde eu me lembro
eu era a garantia
O que aconteceu?
eu preciso entender
Então não me poupe
Tudo que eu disser
você pode usar contra mim
Seja o que Deus quiser
como o diabo quer
Até onde eu me lembro
você fez sua mala
com as roupas mais velhas
com o livro que lia
Até onde eu me lembro
a mala estava vazia
Te levei até a porta
mas não quis esperar
Te empurrei uns trocados
nem desci as escadas
Até onde eu me lembro
era você quem chorava
O que aconteceu?
eu preciso esquecer
Então não me poupe
Tudo que eu disser
você pode usar contra mim
Seja o que Deus quiser
como o diabo quer
Não me poupe
Tudo o que eu disser
você pode usar contra mim
Seja o que Deus quiser
como o diabo quer


Reflexões de sexta-feira a noite em uma livraria

Qual é a chance? Qual é a chance de termos um encontro? Um genuíno encontro com nosso destino? Um encontro que no abala, nos trai, nos desmente, nos atravessa, que nos escancara, nos inverte, nos transforma, nos emudece, que nos dilacera, nos reconhece, nos constitui? Qual a chance de isso acontecer numa noite ordinária, de um dia ordinário, numa rua ou bar ou café ou livraria ou ônibus? Na multidão ou no silêncio? Haveria probabilidade? Haveria pessoanamente precisão? Qual a chance de abraçar meu destino, tropeçar no futuro, encontrar minha sina ou ter uma boa conversa com meus rumos? Qual a chance de isso acontecer hoje, agora? Qual a chance de inspirar algo novo e exalar um ar diferente, de uma nova experiência? Mínimas? Nulas? Seja como for, algo me espera - só preciso encontrá-lo!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Diálogo da detenção

    Onde você estava?
    Na rua.
    Fazendo o quê até essa hora?
    Pensando.
    Pensando no quê?
    Na vida.
    Na vida! Ah! E chegou a alguma conclusão?
    Não.
    Pois enquanto você pensava na vida eu tava aki, preocupado, cansado (Silêncio) Você foi trabalhar hoje?
    Não.
    Não?!
    Não.
    Como não? Você faltou no trabalho, então?
    Folguei.
    Folgou? E por que não voltou para casa mais cedo?
    Tava resolvendo umas coisas.
    Que coisas?
    Minhas.
    AH! Era só mais essa, agora! Eu, aqui, tomando no cú com esses "merda" desses pedreiro, carregando peso, limpando casa e você, de folga, nem pra vir pra casa me dar uma mão. Aposto que saiu, torrou dinheiro por aí... (Silêncio) Assim não dá! Como é que é, meu? Você tá aqui pra quê? Não é pra me ajudar? Porque mais um problema eu não preciso, eu já to cheio. (Silêncio) Pelo menos me ajudar agora a colocar a vó na cama.