Querida Regina,
Como poderei explicar-lhe as variações de humor e os comportamentos paradoxais dos últimos tempos? Como poderei emulsificar numa única solução a sede de compartilhar a vida e de manter completa distância de ti? Não creio que isso seja possível, nem é esse meu objetivo em escrever-lhe. Faço-o apenas por uma porção de culpa num pote de caldo de amor e gratidão.
É bem verdade que sua presença acalentadora e sua preocupação maternal seria preciosos - e, algumas vezes, até indispensáveis - no curso pedregoso a que me entrego. E é tão verdade, também, que sua docilidade mitiga alguns voyeurismos e que sua candura cansada sustenta algo de açoitador das feridas. Digo isso em relação a mim, mas penso o quão extensivo e abrasivo devam sê-los.
Entenda, cara amiga, que eu não podo galhos, eu derrubo árvores. E, reconheça comigo, que isso exige inegável força e determinação.
Talvez seus pensamentos lhe dêem pistas do concurso dos fatos, mas creio que os últimos estejam marcados com tinta forte nos traços errados.
Talvez meus pensamentos não lhe tenham sido claros ou conclusivos. Como relatei, não me era essa a intenção. Mas, de sorte, me contento com o que escrevi.
Sem mais,
Eu.