quinta-feira, 30 de junho de 2011

Carta aos amigos #1

Querida Regina,

Como poderei explicar-lhe as variações de humor e os comportamentos paradoxais dos últimos tempos? Como poderei emulsificar numa única solução a sede de compartilhar a vida e de manter completa distância de ti? Não creio que isso seja possível, nem é esse meu objetivo em escrever-lhe. Faço-o apenas por uma porção de culpa num pote de caldo de amor e gratidão.
É bem verdade que sua presença acalentadora e sua preocupação maternal seria preciosos - e, algumas vezes, até indispensáveis - no curso pedregoso a que me entrego. E é tão verdade, também, que sua docilidade mitiga alguns voyeurismos e que sua candura cansada sustenta algo de açoitador das feridas. Digo isso em relação a mim, mas penso o quão extensivo e  abrasivo devam sê-los.
Entenda, cara amiga, que eu não podo galhos, eu derrubo árvores. E, reconheça comigo, que isso exige inegável força e determinação.
Talvez seus pensamentos lhe dêem pistas do concurso dos fatos, mas creio que os últimos estejam marcados com tinta forte nos traços errados.
Talvez meus pensamentos não lhe tenham sido claros ou conclusivos. Como relatei, não me era essa a intenção. Mas, de sorte, me contento com o que escrevi.
Sem mais,

Eu.

Cenas que não aconteceram #3

  • Alô.
  • Alô, oi! Sou... Sou eu.
  • Oi.
  • Oi, to ligando pra saber se está tudo bem.
  • Aham.
  • Mesmo?
  • Sim, mas não graças a você.
(Silêncio)
  • Olha... Desculpa, eu não...
  • Você não devia fazer promessas que não pode cumprir, nem falar o que não sente de verdade. Não foi sempre isso que você me cobrou?
  • Mas você... Olha, eu não quero brigar, eu só quero dizer que se precisar de algo...
  • Eu posso contar com você? Já ouvi isso antes... E já precisei.
  • Não precisa ser tão grosso.
  • E também não preciso mais ser delicado. Já não preciso muita coisa com relação à você.
  • Você queria o que também, me ligando daquele jeito, aquela hora?
  • Nada, nada...  Só que você me ouvisse, que alguém me ouvisse. Mas você mandou alguém pra mim, obrigado.
  • Eu não sabia, eu não....
  • Mas foi bom. De certa forma, você me libertou, me libertou de mim mesmo. De muita coisa. Obrigado.
  • Er... Que bom, então.
  • Só mais uma coisa - coisas a parte, quando você precisar eu vou estar lá. Pode contar comigo pra qualquer coisa.
  • Eu... Ok... Ah...
  • Tchau, se cuida
  • Tch...

Carta de amor #3

Eu te acompanho de longe e vejo quantas transformações sua vida tem sofrido. No começo me doía não ser parte delas, nem poder impedir algumas.
Mas, como quando se acorda com a sensação de estar abraçado ao vazio, sentindo a queda de si mesmo, percebi que suas mudanças são você. Ainda que eu me ria de algumas e com outras eu me revolte, você está sendo o que já era e crescendo no que tolhia.
Não nos conhecíamos, não nos demos tempo para isso, preferimos arder no fogo do peito a cozinhas nas brasas do coração. O resultado: queimamo-nos, ferimo-nos e marcamo-nos.
Arriscamo-nos e o Futuro nos deu as costas, e nem pude ficar surpreso porque o Presente já me alertara.
E, ainda reticente, não é com alguma paixão que vejo suas mudanças, não é com pena, mas com sorriso no rosto que vejo seus frutos de personalidade.
Talvez, se esse florescer se desse em nós, estivéssemos juntos - nada me fascina mais que a força do ego de outrem - ou nunca tivéssemos extendido-nos - nada me repugna mais do que um fim anunciado.

Carta de amor #4

Eu só tenho a agradecer...
Agradecer por tudo que você me proporcionou. Agradecer pelo carinho, pela atenção, pela preocupação quando nem mesmo minha família podia ou parecia querer me dar.
Agradecer pela paciência, pela prudência e pela tolerância que teve comigo, quando por vezes nem eu mesmo podia me suportar.
Agradecer pela sabedoria, pelo conhecimento e pelo dia a dia que partilhou comigo, mesmo sabendo que eu não tinha nada em troca para dar.
Agradecer pelo Amor dado e recebido, me fazendo experimentar algo tão sublime e tão profundo.
Agradecer pelos nãos, pelo descaso e pela indiferença, que me ajudaram a me libertar.
Em outros tempos, olhar nos seus olhos e doía, ouvir-te me açoitava a alma e um espírito de sujeição, subordinação e submissão, superegoicamente incontestável, me obssediava em sua presença.
Mas a maturidade banha a alma suavemente, o tempo seca as lágrimas e os martírios cessam ao despertar dos pesadelos.
Hoje, ver-te não é mais dor. Ouvir-te não é mais tortura. Mas você não me é indiferente. Apesar de tudo eu vou estar lá, quando você precisar. Hestíaco, sereno e, principalmente, por escolha e não mais por culpa.

"Never mind, I'll find someone like you" 

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Sobre o tempo e sua família

Os dias tem passado como de costume, sem ao menos prestarem atenção em mim, ao que penso e ao que sinto. O Tempo é um senhor muito do esnobe, diga-se a verdade. Deve ser devido a sua soberania, ou talvez devido à sua esposa, Eternidade, senhora tão grande e ensimesmada que, para acompanhá-la, o Tempo deve ser indiferente.  Seja como for, ele não tem sido nada gentil comigo. E digo isso não só referente aos acontecimentos dos últimos meses, mas sim dos últimos 2 anos.
Os gêmeos Presente e Passado, serelepes, teimosos, ao redor do pai, me fazem cócegas, me batem na cabeça, me questionam e instigam como crianças mimadas, das quais eu não posso me defender. E o Futuro, esse sim que poderia me visitar, me acalentar, que eu desejaria pegar no colo e olhar para seus olhos brilhantes, ainda se encontra em gestação na Eternidade. Família difícil...

domingo, 12 de junho de 2011

Carta de amor #2

Eu te amo, e isso me incomoda. Como uma coceira contínua no coração e um pensamento recorrente na cabeça. Mesmo com sua pretensão, com sua presunção.
Te ouvir, ainda que seja com um não, me acalenta. Me banha a alma e ilumina a escuridão das coisas. Não que um não deixe de doer, mas, apenas que, momentaneamente a fora e o conteúdo se fundem uníssonos, vibrando no meu peito. Isso não tira a mágoa, apenas não a deixa rancorosa, por alguns instantes.
Sinto sua falta, seja lá o que significar. Daqui a pouco é dia 12/06, mas talvez seja melhor comemorar nós dois no 02/11. Sinto sua fala, mas estou aprendendo a viver sem você. Até tinha conseguida, mas a pancada dos últimos dias foi muito forte e eu não resisti. Mas, acredite em mim, não haverá mais quedas para o seu lado.
De ontem em diante, agora e sempre, eu vou crescer, eu vou ser forte e vou ser longe. Ainda que eu ande no vale da sombra da morte eu não te chamarei.
Sei que, no fim, tudo que você tem a me dizer é "você causou isso". Antes eu morreria com essa frase, mas, hoje, depois de ontem, enxergo isso como quem lembra quando derramou o leite pela primeira vez. Doeu, mas hoje não é castigo.
Me libertei de muitas coisas nos últimos dias, de grilhões e de felicidades. De desculpas e de virtudes. Dos anjos e da danação. Voltei. Voltei a mim, me reencontrei. Mas ainda não reencontrei a minha paz. Ela não há sem você.
E, por gentileza ou traquinagem, quis o destino que tudo começasse do zero: eu duro, você em si; eu sozinho, você cercado; nós magros e desconhecidos um do outro. Será que um dia nos reencontraremos?
Eu te amo com o amor de uma vida passada e uma vida presente que eu não sei qual é.

Manifesto

A(s)cendam as tochas, levantem as forquilhas e marchem adiante.
Viva a revolução.
Levantem a cabeça, gritem aos urros e escolham seus alvos.
Viva a revolução.
Passem por tudo, derrubem os muros e arranquem os portões.
Viva a revolução.
Evacuem os hospitais, libertem os presos e invadam as escolas.
Viva a revolução.
Depedrem os telhados, quebrem os vidros e roubem os carros.
Viva a revolução.
Rasguem as roupas, queimem as fotos e pintem a dissolução.
Viva a revolução.
Gerem o medo, espalhem a discórdia e calem os sonhos.
Viva a revolução.
Que a monarquia do rei deposto ceda lugar à democracia de uma pessoa só.
Pela liberdade da ousadia.
Pela sedimentação da privacidade.
Pela justiça das desigualdades.