Tenho pensado muito, mas tenho falado pouco, com poucas pessoas e sobre poucas coisas. Porém, dentro de mim, tudo se mistura, se difunde, se dispersa como uma massa.
Uma reflexão me veio na caminhada obrigatória do trabalho - a transitoriedade. Tenho vivido, tenho pensado, alias - afinal, sou obrigado a concordar com o igualmente geminiano F. Pessoa, que penso meus sentimentos e vivo o meu pensamento - sobre mim e minha transitoriedade. Tudo tem sido transitório para mim: transitório numa mudança de cidade, num estádio universitário, transitório numa relação datada, e na espera de uma volta, transitório numa moradia e na espera de um começo de vida, transitório num trabalho e num emprego. Cada dia vivido como o presságio de um fim.
Tudo tem sido transitório e evanescente. E as coisas são construídas dessa forma por mim. Nada deve durar, nada é feito para durar, pois tudo depende de uma condição temporal. Tudo está intrincado numa rede, numa teia em que eu espero a tecitura de cada fio para poder desenvolver a malha existencial. Penso em mim como algo transitório, algo que muda todo dia e, por isso, não pode ser sólido.
Sólido pode ser, mas o gelo é sólido e é transitório. E o que há de perene? O que há de seguro? Tudo, para mim, está num futuro, num adiante, num além. Tudo está fora de mim - sim, Ricardo, você já tinha me alertado sobre isso - e só me resta esperar pelos acontecimentos.
E eu? Quem sou eu? Sou o nó das coisas? Sou a substância de tudo? Sou mais uma transitoriedade no mundo? Sou perene em mim? É essa minha aflição. Como posso eu construir coisas, perenes, estáveis, seguras, se duvido de minha própria consciência? Há essa possibilidade? Ou devo me contentar que tudo é transitório e desistir da vaidosa imortalidade?
Pensamentos, somente pensamentos que precisavam sair da minha cabeça, antes que ela voltasse a explodir. O remédio da loucura é a expulsão.
Chega de existir...
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